
A Kruella desafiou-me e aqui vai a resposta:
O pós 25 de Abril foi (ou deve ter sido) inicialmente um rubro de emoções, um desabrochar de esperanças julgadas já perdidas, um erguer da cabeça colectivo, um levantar os olhos ao céu com todas as ambições renovadas. O pós 25de Abril foi (ou deve ter sido) um convite à festa de rua, à festa dentro de casa, à festa entre amigos e camaradas, entre conhecidos e desconhecidos. O pós 25 de Abril foi (sem dúvida) o culminar de certezas, o culminar de liberdades, o culminar do fim do totalitarismo.
O pós 25 de Abril foi (ou deveria ter sido) a perpetuação de tudo isto ao longo dos tempos... mas não foi...
Hoje, passados 33 anos do 25 de Abril (mais o dia 26 e o dia 27) deparo-me com a triste realidade que não houve muita coisa que mudou... a ditadura continua, mas disfarçada. Continuamos sob um totalitarismo... o totalitarismo do marido que acha que tudo pode sobre a mulher, o totalitarismo do patrão que julga que tudo pode sobre o empregado, do totalitarismo disfarçado com sarcasmos e sorrisos amarelos.
Hoje passados tantos anos a liberdade acabou por ser uma faca de dois gumes, por um lado diz-se tudo o que se quer mas de uma forma totalmente estúpida. Grita-se, berra-se, perde-se a razão e continua-se a insistir nela, falam-se as maiores atrocidades, dizem-se os maiores disparates, exige-se para cada um o que não é permitido aos outros. E por outro lado há palavras que continuam a não ser ouvidas, há teorias que continuam a não serem faladas, há notícias que continuam a não ser transmitidas e outras (as que não interessam a ninguém) que nos levam à loucura pela excessiva repetição.
Manobras de diversão no seio político que nos tentam levar a todos, como a um grande rebanho, a pensar o mesmo, a sentir o mesmo... a não pensar a não sentir.
Hoje, passados 33 anos do 25 de Abril (mais o dia 26 e o dia 27) percebo a desilusão daqueles que ergueram os seus braços e fizeram ouvir as suas vozes para um amanhã melhor.
A mim apetece-me erguer os braços, apetece-me fazer ouvir a minha voz... mas deixo-me cair no sofá com o cansaço no silêncio atropelado da minha voz e em cima dos meus braços moles...